Poesia

Certos Burros

Parecem gente sem instrução
Alguns que até sabendo ler
Vão falando, mas sem ilusão
E ser estúpidos é o que sabem ser.

Ao insulto recorrem amiúde
Aos outros dons não podem aceder
Maltratam cabeças com saúde
Forma única de burrices esconder.

Estamos já a isso bem habituados
Assim não atendemos aos seus urros
Não ligamos por ser enxovalhados
É o desconto a dar a certos burros .

Dinis Jesus — 02-11-2014

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Poesia

Morte Devagar

Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja quem não lê quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

Martha Medeiros

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Mentirosas Gentes

A mentira é suas entranhas
Inventam suas façanhas
De tolices dizem montanhas
Seu viver é todo só barganhas.

A enganar, nunca as apanhas
Para comer lixo, são piranhas
São das doenças as peanhas
Seu mundo é pleno de artimanhas.

Pois há gentes bem estranhas
Com maldades tamanhas
Que vivem de suas manhas
E a todos só contam patranhas.

Na discussão nunca lhes ganhas
Tecem mais teias que as aranhas
E nunca na sua fala te desaranhas.
Afasta-te delas, ou não te amanhas.

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Sucesso

Ajudar a quem precisa,
Nunca causar no outro a cabeça indecisa,
Rir alto e claro afastando a tristeza,
Granjear o respeito alheio com firmeza,
Obter o afeto de velhos e petizes,
Dar às pessoas rostos mais felizes,
Não dar crédito à traição de falsos amigos,
Deixar para trás os males já antigos,
De todas as obras apreciar a beleza,
Sejam elas humanas ou da natureza,
De encontrar o melhor no Homem ser capaz,
Respeitar o outro, seja ele menina ou rapaz,
Ao mundo acrescentar vida, uma qualquer,
Seja um filho ou um singelo malmequer.
Contribuir para melhorar a vida de alguém
É sucesso bastante, nunca serás zé-ninguém.

(Inspirado num dos pensamentos de Ralph Emerson)

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Dias de nuvens

Neste hoje, tempo de cinzentas cores
Vamos vivendo com agre sabor na boca,
Se somos mais arrojados ou atrevidos,
Não admitindo ser pelo bando, absorvidos,
Logo seremos acusados de ter cabeça louca.

Pois não liguemos ao tal ignóbil bando
Guiemo-nos por individuais e livres pensamentos
Avançando corajosos na direção de boa causa,
Cultivando-se a cada dia mais sem qualquer pausa
Opinando sabiamente em todos o fóruns e momentos.

É que há muitos que não vivem, arrastam-se até morrer.
No aceitar ser explorados são colaborantes primeiros,
Não se revoltam, não questionam, aceitam tranquilamente,
Culpam sempre os outros, esquecem seu votar estupidamente
E que funcionam como animais, mas desses, são autênticos carneiros.

Dinis Jesus – 25-04-2014

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O acerto possivél

Quando o desejado se mostra inatingível
As escolhas ficam fáceis, aceita-se menos.
Com sorrisos tristes, disfarça-se a perda
Decide-se novo rumo, agora mais possível.

Com o pensamento em ti, a vida avança
Bebendo mágoa, saciando a sede ao peito.
Menos feliz o coração, mais calma a mente,
Dentro do menos, escolhe-se temperança.

Noutro caminho nos vai o tempo levar,
Na curta vida és só desejo inalcançável,
A Deus peço para certa maldade relevar.

Já são longos anos, muitos, em que sofria
Eras desejado acerto, deveras impossível
Mas sabes? Eras tu, quem eu mais queria.

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Tempo de míngua

São nuvens cinzentas
Que pairam nos céus
Escondem as belezas
Tais damas com véus.

Tempos duros e maus
Semeiam a vil pobreza
Sonhos não realizados
Terrível a feia tristeza.

Escasseiam os haveres
Causa viver sem calma
Põe os adultos a chorar
É ruim sofrer na alma.

Condutores incapazes
Gente sem formação
Assalto cego ao poder
Estupida e má ambição.

Qual deles o mais ruim
Nenhum o tem merecido
O povo é bem enganado
Ou muito mal esclarecido.

Maus políticos mandam mal
Eleitos pelos casmurros
Para serem comandados
Fácil fica, sendo burros.

Nesta vontade insana
A cultura vai mitigando
Causam falta de posses
E menos vão estudando.

Com tal desumano viver
Vai a malta avançando
Faltam básicos materiais
Alguns se vão matando.

Para contas poder pagar
Se vive na escravatura
Muita hora a trabalhar
Desde cedo à sepultura.

No trabalho muita honra
Se ensinou na juventude
Maléfica e falsa intrujice
Ser escravo não é virtude.

Não será possível trabalhar
Dos animais ser o borrego
Produzir com alinhamento
Quando só há desemprego.

Ao pobre tudo vai faltando
Mas o rico segue a prosperar
É o povo que mal vai votando
O único que isso pode alterar.

Há que escolher diferente
Ser na eleição bem arrojado
Ir sempre de cor mudando
Até alcançar o mais desejado.

Não deve o pobre ter medos
Quando sua vida está a arder
Aquele que já não tem nada
É só nada, o que pode perder.

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Sentires matinais

Sons celestiais
Perfumes divinais
Auroras boreais
Calores infernais
Sabores angelicais
Interiores vendavais
Esfuziantes carnavais.

Ver-te foi causa de estranhas sensações
Foi compulsiva e violenta inquietação,
Palpitante bater descompassado,
Num peito em total emaranhado.

Foste hoje raio de sol na manhã cinzenta,
És a doce calma e paz, mas causa de tormenta.

Terá sido esse o meu dia de maior sorte,
Abençoado nessa manhã o acordar
Por contigo, nas entranhas da terra, cruzar o olhar.

Naquela hora, o tempo parar eu queria,
Fora tal possível, juro que o faria.

Mais até, tudo trocava em intenso desnorte,
Para ter-te, de bom grado, aceitaria a vil morte.

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Sonhar-te

É a sorte de mirar-te,
Pensar em alcançar-te,
O lutar de cortejar-te,
Doce é conquistar-te,
E belo o namorar-te,
No prazer total de amar-te.

É turbilhão de sentimentos,
Todos bem violentos,
Em seus deslumbramentos,
Com idílicos encantamentos,
Nos etéreos cruzamentos,
São celestiais nossos momentos.

É agora desejar-te,
Avidamente beijar-te,
Sabidamente acariciar-te,
Intensamente penetrar-te,
Com sensações inebriar-te,
De espásticos orgasmos inundar-te.

És um sonho de mulher, és só o sonho de sonhar-te…
Sonhar-te,
sonhar-te loucamente,
num total sem norte,
em obsessivo sonho indecente…

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Receita

Se o mundo te maltrata e desagrada
Não reconhece nem te dá o merecido
Trata-o a ele como bicho adormecido
Faz-te a uma vida tola e desregrada.

Estado de abandono e surda entrega
Tolde-se a razão ou boa consciência
Tudo vale, até uma gulosa indecência
O corpo clamará bom sexo e refrega.

Serve o quente verão e o frio invernal
É quase transe ou dança com fumaça
Musica, álcool e o bom prazer carnal.

Se a decadência é coisa que nos valha?
Nos dias de confusão ou má desgraça
Serve bem, quando tudo o resto falha.

Dinis Jesus 17-01-2014

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