Reflexões
“No Político, distingo dois momentos, o do presente e o do futuro. Principiando pelo segundo desejo o desaparecimento do Estado, da Economia, da Educação, da Sociedade e da Metafísica; quero que cada indivíduo se governe por si próprio, sendo sempre o melhor que é, que tudo seja de todos, repousando toda a produção por um lado no amador, por outro lado na fábrica automática, que a criança cresça naturalmente segundo suas apetências sem as várias formas da cópia e do ditado que têm sido as escolas, públicas e de casa, que o social com suas regras, entraves e objectivos dê lugar ao grupo humano que tenha por meta fundamental viver na liberdade e que todos em vez de terem metafísica, religiosa ou não, sejam metafísica. Tudo virá, porém, gradualmente, já que toda a revolução não é mais do que um precipitar de fases que não tiveram tempo de ser. Por agora, para o geral, democracia directa, economia comunitarista , educação pela experiência da liberdade criativa, sociedade de cooperação, e respeito pelo diferente, metafísica que não descrimine quaisquer outras, mesmo as que pareçam antimetafísicas. Mas, fora do geral, para qualquer indivíduo, o viver, posto que no presente, já quanto possível no futuro: eliminando o seu supérfluo, cooperando, aceitando o que não lhe seja idêntico – e muito crítico quanto este -, não querendo educar, mas apenas proporcionando ambiente e estímulos, e procurando tão largo pensamento que todos os outros nele caibam. Se o Futuro é a Vida, vivamo-la já, que o tempo é pouco: que a Morte nos colha vivos, e não, como é hábito, já meio mortos; aliás, suicidados.
PENSAMENTO À SOLTA, TEXTOS E ENSAIOS FILOSÓFICOS II, Âncora Editora, 1999, pp. 175 e 176.

Agostinho da Silva

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Diário, Reflexões
Superioridades…
Há gente que julga bem entender o mundo e que os que pensam diferente de si são tolos, não se dando conta que o universo é mais do que papas e bolos…
Só pode haver um pensar, aos que dele desafinam, não querem nem ouvir falar…
Não discutem, não querem contraditório, porque tal os obriga a pensar, a sua perceção basta-lhe e só com ela querem o mundo olhar…
Se o seu querer está satisfeito, se todos os dias as antenas lhes servem um mundo perfeito, que se não estrague o equilíbrio, seja com opiniões políticas, armas ou paus.
Os que estão com eles são bons e os que pensam ou querem um mundo diferente são maus…
Vive-se na espuma dos dias sendo guiados por aquilo que conhecem e pelas narrativas e comunicação dos senhores, esses senhores, que seus particulares interesses não trazem à luz…aos da superioridade não lhes interessa apurar o facto que tal espuma produz…
Uns são brutos e rasteiros outros mais polidos e educados mas usam da mesma intransigência, os que pensam diferente não são para aturar e todas as suas frases são julgadas como tonta impertinência…
Se algo é dito que ao seu pensar se opõe, seja opinado por um burro ou por um ilustre doutor…é coisa para não querer escutar e de imediato recusam e com arrogância deixam sair aquilo que os habita, um pequeno ditador…
Não têm pejo algum em pôr em causa longas relações e causas comuns se num qualquer assunto a visão é diferente, e preferem o afastar…
O que de decente levará tal gente a, perante ver diferente, assim se colocar?
Não há no mundo certezas nem de um lado bons e do outro maus, nada é absolutamente perfeito e se um é coxo o outro é manco…
A mundial paleta de cores não se divide entre preto e branco.
Pior são os que de ajuda aos frageis pouco ou nada fazem se a coisa está ao seu alcance mas se a coisa é de nível extratosferico logo se perfilam pela pseudo vítima…
Mas calma, salta a hipocrisia quando a mesma coisa acontece e é o agressor que defendem, culpam a vítima e entendem a agressão legítima.
Os tais da superioridade cultivam ódios de estimação mesmo que tais ódios não saibam explicar…
Parece que não entendem que discutir sem superioridade é o que a bom porto pode o navio levar.
Com frequência as discussões e argumentos dos superiores vão do assunto debatido e suas ideias base para o discutir o debatente…
Como se discutir aquele que se lhe opõe ao ideário fosse de interesse ou coisa inteligente.
Se a ser, legitimamente, brutos todos temos divino direito, também nós devemos poder dizer sem grande respeito, em bom vernáculo português…
Essa gentinha que se julga superior que se fodam todos, e de uma só vez.
Dakar, 16 de Maio 2022

Dinis Jesus

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Reflexões

1- A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista.

2- A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!

3- Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente.

4- Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica.

5- Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reacionário centrão.

6- Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?


7- As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas ruturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir.

Natália Correia
Todas as citações foram retiradas do livro “O Botequim da Liberdade”, de Fernando Dacosta.»

Natália Correia

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