Diário

Vinte e seis anos depois da partida do camarada Zeca.

Hoje faz exatamente, vinte e seis anos, que partiu o camarada Zeca. Mais nos assalta a mente esta data porque uma das suas canções se está de novo a tornar símbolo de contestação e revolta. Sim, essa tal de Grândola vila morena.
Passamos hoje por momentos de maior instabilidade e perseguição de algumas pessoas e até classes inteiras. Ainda ontem lia o professor Canotilho a afirmar a inconstitucionalidade de parte do orçamento de estado, com base em medidas classistas, nomeadamente o assalto às reformas dos que trabalharam.
Esta gente que se instalou na governação portuguesa e mesmo europeia, não percebe que estamos a retroceder, em termos civilizacionais, para condições quase inimagináveis há ainda muito pouco tempo.
O pior da situação está no facto de que nem sequer é porque se tenham deteriorado as condições gerais de qualidade de vida na europa por nenhum fenómeno natural, ou guerra ou outro qualquer acidente imponderável ou improvável. Todo o que nos está a acontecer é causa de decisões políticas e económicas que foram sendo tomadas pelas sucessivas governações ocidentais.
Hoje há comida na europa que chega para todos e ainda sobra, então porque é que alguns passam fome? A resposta está na distribuição e no sistema ultraliberal da economia de mercado, onde o lucro, claramente se sobrepôs a todos os outros vetores da vida em sociedade. Demos como exemplo extremo a fome, como poderíamos falar de emprego, de falências, de atirar para a desgraça famílias inteiras, a quase obrigatoriedade da emigração como única saída para a sobrevivência.
Pode dizer-se o mesmo acerca do dinheiro que está disponível na europa, e é muito e suficiente para inverter o rumo que vamos seguindo. Mas falta consciência distributiva nos capitalistas, quando muito são adeptos da caridadezinha, salvadora da mendicidade para se alimentar, mas não salvadora da dignidade humana.
Não era esta condição de vida dos portugueses, o que ambicionava com as suas acutilantes letras, o nosso saudoso camarada Zeca Afonso, hoje como antes sempre muito atuais, tanto as canções como as ambições de uma vida melhor para os compatriotas menos protegidos pelo sistema. É bom não esquecer que hoje existem bastantes a ser cobertos pelo manto do sistema e que continuam a enriquecer e a melhorar as suas condições de vida. Serão os tais retratados na letra da canção VAMPIROS.

De novo bebendo na escrita de Garrett, parecem esquecer os nossos decisores, que para fazer um rico é necessário fazer padecer, trabalhar em demasia e atirar para a desgraça uns quantos milhares de cidadãos e compatriotas. Era contra esta diferença de classes e o maltratar dos mais desprotegidos que ele, Zeca, se insurgia. Insurreição à qual me junto eu da forma que posso e à qual se juntam cada dia mais milhares de cidadãos deste nosso país, ainda que seja cantando como protesto. Aproveitando o cínico entendimento do senhor primeiro-ministro, de que esta é uma forma de contestar com bom gosto. Pode ser que assim a polícia não carregue sobre as pessoas.
Deixo também a ligação a outra canção do inimitável Zeca, que descreve um determinado tipo de meninos e que são a geração que hoje influencia os nossos destinos. Hoje sem correntes e sem matracas, mas tendo feito vingar o seu estilo de sociedade.

ESPEREMOS QUE A MUDANÇA CHEGUE TAMBEM DE FORMA TÃO SURPREENDEDORA COMO NO TEMPO DA ANTIGA SENHORA.
QUE A MUSICA DO ZECA POSSA TER A SUA INFLUENCIA NESTA URGENTE MUDANÇA.

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