Diário

Seguro, o PS e o XIX congresso.

Este intempestivo congresso, aparentemente desnecessário, agora, pela quase unanimidade à volta de Seguro, pode ter sido bem importante em termos de fazer passar a mensagem do PS.
Em tempo de grande amargura para a grande maioria dos portugueses, em tempo de recessão económica, em tempo de crise de valores, em tempo de enorme desemprego, em tempo de desnorte governativo e logo após os dislates presidenciais no seu discurso do 25 de abril. Este tempo de antena dado ao PS em todas as televisões só pode ter ajudado a fazer chegar aos portugueses a mensagem que a direção deste partido quer fazer chegar.
Pois bem, fomos ouvindo várias intervenções de vários oradores, mais ou menos conhecidos, e fomos reparando que a unidade discursiva era mais ou menos evidente, embora possa parecer um pouco forçada em algumas ocasiões. Mais combate ao governo, mais ataque ao presidente da república, mais bicada na Troika, menos bicada na esquerda parlamentar, lá foi evoluindo até ao discurso final de António José Seguro.
Chegados aqui, o congresso passou a ter um interesse superior, já que se esperava desta ultima ida à tribuna, uma apresentação de um projeto de programa de governo. Foi um discurso seguro, apresentou ideias que roçam o brilhantismo, falta que se concretizem caso chegue ao governo. Começo a ouvir falar em salvar empresas que tenham dívidas ao estado e à banca, coisa que nunca antes havia escutado de nenhum político. Esta sim seria uma excelente medida para estancar o desemprego. O nosso tecido empresarial está absolutamente em cacos e terá de ser a juntar os cacos que poderemos alcançar a solução inicial e que poderá levar a um rejuvenescer do nosso tecido empresarial. Sei do que falo por experiencia própria.
Agradou-nos também saber da disponibilidade para a construção de um governo multipartidário caso o PS ganhe as eleições. Acho que pode ter gente de todos os quadrantes políticos desde o PSD ao PCP passando por BE e CDS, desde que a filosofia orientadora seja a da defesa imediata dos portugueses.
Dizemo-lo sem acreditar na possibilidade da solução por radicalismos de várias naturezas, mas achamos do que temos ouvido a personalidade do PSD, do CDS, do BE e da CDU, que seria possível o PS fazer um programa de governo bastante mais à esquerda do que temos tido nos últimos 25 anos, sem chocar grande parte dos membros desses partidos, tal o consenso que se gerou em combater estas políticas governativas com perfume neoliberal de origem europeia, a que se tem dado o nome de austeridade.
Austeridade seria se fosse para todos, mas não é, vejam-se os lucros e os prémios de algumas empresas nacionais e seus gestores. Situação que até poderia ser aceitável se não fossem tais ganhos realizados em cima das perdas e desgraças dos cidadãos mais desfavorecidos, com pagamentos diretos do estado por força de contratos que já há muito deviam ter sido alterados.
No nosso entender deveria o PS tentar encontrar entendimentos à esquerda para fazer com que a balança pendesse para o lado oposto daquele onde sempre tem estado, com os resultados que hoje são visíveis. Assim e dada a natureza intransigente do BE e da CDU, deverá a abordagem ser cuidadosa mas firme, com a afirmação que algum rigor terá de existir para controlar as contas públicas, disso não pode restar a menor dúvida. Não se pode agora ir com toda a sede ao pote, podia partir-se.
Esse rigor deverá incidir sobre esses tais contratos de rendas garantidas primordialmente e em contratações milionárias de serviços absolutamente desnecessários por ter o estado a competência para os fazer. Deverá ser explicado que o memorando existente não necessita de ser rasgado, necessita apenas de ser renegociado de forma a poder deixar de se chamar memorando de agressão e poder chamar-se memorando de ajuda financeira. Talvez a responsabilidade de ter de governar trouxesse alguma temperança a estes partidos de esquerda mais radical, nos quais encontro em termos ideológicos muitas das nossas ambições.

GOSTÁMOS DO QUE OUVIMOS NESTE DISCURSO DE ENCERRAMENTO, SABEMOS QUE NÃO AGRADOU ÀS DELEGAÇÕES DOS OUTROS PARTIDOS PRESENTES NA SALA, MAS CREIO QUE A ESQUERDA PRESENTE APENAS QUERIA OUVIR O RASGAR DO MEMORANDO PARA FICAR SATISFEITA. DEVERIAM “BEBER” NA TEORIA DO RECUO ESTRATÉGICO DO LENINE, PARA SABEREM QUE POR VEZES O ACEITAR PARA ALTERAR É MUITO MAIS PRODUTIVO QUE RECUSAR LIMINARMENTE. AOS OUTROS DA MAIORIA QUE APOIA O GOVERNO, SOMOS TENTADOS A ENTENDER A RETÓRICA DA DEFESA DAS ASNEIRAS GOVERNATIVAS, MAS SEM CONCORDAR COM ELA.

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