Diário

Sócrates e certa justiça

Não é que Sócrates, o perigoso delinquente, foi ontem colocado em prisão domiciliária e sem a pulseira eletrónica…

O que terá mudado na cabeça do Juiz e do Ministério Público para antes, na anterior apreciação, o homem ter de usar a pulseira eletrónica e agora já não precisar? Não pode ter a ver com a recolha da prova, nesse campo nada mudaria em termos das possibilidades de José Sócrates obstaculizar ao inquérito, ou mudando seria, a proposta anterior facilitar mais isso que a atual medida, visto que hoje com a medida de coação atual, os contatos com o arguido podem ser verificados policialmente e antes não.

Desta situação, podemos inferir que esta justiça se está a defender e com uma atitude de minimização do erro, sabendo que o tempo acalma consciências e que se avançar com jeitinho as pessoas a escrutinam menos nos seus atos. Como tal, vão gradativamente minimizando a sua força na esperança de que a coisa vá esfriando. É que na próxima reapreciação teria de sair em liberdade no cumprimento dos prazos, se ainda não existir acusação, coisa que se nos mostra como inalcançável antes de novembro deste ano visto haver diligências de busca recentes e documentos para estudar e qualificar.

Argumenta-se para papalvos num qualquer comunicado público, escudam-se no segredo de justiça e na próxima reapreciação passará a liberdade com termo de identidade e residência e impedido de contatar os outros arguidos, assim avançará o tempo e a malta vai esquecendo…

Assusta-nos esta atuação de certa justiça, assusta-nos muito, porque nos leva a pensar se não estará a fazer o mesmo que o Macbeth na tragédia do Shakespeare que sempre ia somando erros à sua atuação na esperança de tapar os anteriores. Já se viu que a prisão preventiva foi para permitir investigar, como o próprio MP demonstra neste comunicado onde nem quantifica exatamente o número de pessoas que ouviu nem a quantidades de buscas que fez…

“ Neste período foram ouvidas cerca de dez pessoas e realizadas mais de trinta diligências de buscas”
É adorável o grau de exatidão desta informação.

Na senda do Macbeth virá agora uma qualquer acusação, mais ou menos rigorosa, depois o que mais tememos é que venha uma condenação mal fundamentada para limpar a face da justiça numa atitude de solidariedade corporativa. Mais tarde de recurso em recurso a coisa acabará por prescrever como é costumeiro na nossa, muito má, justiça.

Poderemos até interrogar-nos, com base numa certa teoria da conspiração, acerca da oportunidade desta alteração da medida e da sua proximidade em relação à campanha eleitoral, tendo sempre na memória as declarações do ilustre Paulo Rangel feitas na semana passada… Haverá neste processo interesse político? Começamos a temer que sim.

Desta justiça da treta apenas temos medo, muito medo.

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