Reflexões

Orientação sexual

Vamos abordar um tema, que quase nunca deveria ser assunto de discussão, já que é uma escolha individual, como tal deveria ser como gostar mais de uma comida ou de outra… Ninguém discute se uma pessoa gosta de marisco ou não, se gosta de caracóis ou não… Pois se gostos de comida não se discutem, porque se discute se gostamos de homens ou mulheres? Pior ainda, quando uns se julgam superiores e mais acertados que outros apenas porque são uma coisa e não outra em termos de escolha de parceiro…
Preconceito é preconceito, e achar que sabemos o que é melhor ou pior para outro é um exercício de adivinhação pura, para lhe não chamar exercício de estupidez incapacitante.

Depois poderemos sempre discutir se determinadas pessoas podem ou não ter certos direitos, no caso, o da adoção de crianças… Nesse caso pré-determinar essa capacidade com base na orientação sexual, volta a ser novo exercício de estupidez, pois quase todos os casos de maus tratos e abusos de todas as naturezas a menores, se passam em relacionamentos ou famílias heterossexuais… Talvez aqui só a matemática seja a causa e tal facto assente apenas no número de famílias heterossexuais, sendo este infinitamente superior ao das famílias homossexuais… Fica o beneficio da duvida.

Lamentamos informar alguns dos mais defensores da relação heterossexual, como a única decente e desenhada pela natureza, que muito provavelmente em pouquíssimas gerações o parceiro sexual passará a ser o que está mais à mão, independentemente de ser homem ou mulher… Será a natureza a operar essa mudança, ou aqui é só a cabeça do homem a operá-la? Respondam se souberem os iluminados opinadores das leis da natureza.
Muitos dos que opinam contra a homossexualidade de forma violenta e desprovida de saber ou educação, não fundamentam a sua ideia em coisa nenhuma palpável, cientifica ou concepcional, fundamentam apenas com base na educação e preconceito de cada um.

Saberão esses que na pátria da nossa civilização moderna, a antiga Grécia, os senhores só eram verdadeiramente reconhecidos como ilustres se tivessem um jovem companheiro? Que as orgias gregas eram homossexuais masculinas? Que a prática da homossexualidade é da idade dos humanos? Que mais espécies animais praticam a homossexualidade? Que os humanos são, antes de tudo, um animal? Que a preferência e o gosto, por uma pessoa do mesmo gênero, estão carregados nos genes de cada um?

Após tentarem responder às perguntas atrás formuladas, talvez já entendam que hoje são essencialmente as religiões e as mentes conservadoras que forçosamente querem fazer valer para os outros as suas ideias, esquecendo que a sua opinião não é mais capaz que a do vizinho do lado, quando a questão são os costumes… A verdade é que cada um sabe de si, mas do outro, só sabe o que esse outro, lhe disser não mentindo…
A obrigação de cada um é ser feliz, cada um será à sua maneira, desde que objetivamente não faça mal ao seu semelhante, nem importune de forma objetiva… Já se importunamos por sermos diferentes e de forma absolutamente subjetiva, é um castigo merecido para os importunados, pois não deviam preocupar-se com a vida subjetiva dos outros…

A nossa educação e cultura é absolutamente fundamentada em conceitos que noutros tempos permitiam matar e torturar com base em crenças e outras regras de fundamento quase sempre religioso ou metafisico, lembram-se da inquisição? Partilhavam da mesma abordagem que os críticos da homossexualidade hoje praticam. Somos na cultura ocidental, condicionados por valores educacionais de base judaico-cristã, assentes em cima de cânones religiosos com mutação muito lenta, daí a relutância em se abrir à diferença. Lá chegaremos com o tempo.

Não vemos normalmente nenhum homossexual a tentar convencer nenhum heterossexual para a sua prática, a menos que estejam interessados em o ter como parceiro de sexo ou de relacionamento, caberá aqui, tal como nas relações heterossexuais o direito, a dizer não, a cada um dos que não quiser. Confessamos que as paradas gays não nos agradam, ao gosto pessoal, por serem demonstrações espalhafatosas, compreendo que são para chamar a atenção para o coartar de direitos, tal como as manifestações feministas, ou de defesa dos animais etc. etc., sem tirar nem por… Mas entendemos todas absolutamente desnecessárias numa sociedade decente…

Não devemos obrigar ninguém a nada, nem pregar a nossa orientação sexual como a única acertada… Todas são, pois a tal natureza que alguns usam para justificar, foi a mesma que deu ao homem e aos macacos o prazer em fazer sexo, a intenção de fazer sexo, sem ser para procriar… Caso não tenham dado conta, o ato sexual serve para muito mais coisas que procriar.

Resumindo, é uma estupidez querer decidir para outro ser humano se ele deve ou não escolher uma determinada orientação sexual… Nos gostos devemos ser absolutamente flexíveis, cada um gosta do que gosta, desde que objetivamente não moleste ou violente terceiros…
Mas certos valores preconceituosos e hipócritas, podem até desmontar-se quando vemos tanta prática homossexual, desgraçadamente muitas vezes com menores, por parte de membros da igreja, estrutura que pouco admite a homossexualidade… Serão doentes esses senhores vigários? Creio que não.

Nota: escrito em novembro de 2013, após acalorada discussão com uns amigos, por autor heterossexual e até católico por formação embora pouco celebrante.

Deixamos um poema para tentar dar clarividência a certas mentes mais entulhadas de teias de aranha e lixo preconceituoso…

 

António Gedeão

António Gedeão – Impressão Digital

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.

Cada um é seus caminhos.

Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

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Reflexões

Os alinhadinhos

Para nós, os alinhadinhos e bem comportados, aqueles que se julgam e querem puros, os que nunca abusam da sorte, os que querem a vida sempre com norte, sejam burros ou doutores, se a vida lhes for curta, será para eles e para os outros uma enorme sorte.
Quem não corre riscos verdadeiramente não vive, apenas existe quem sempre é cordato e comedido, passa pela vida sem causa e no fim nada fez sentido.
Afrontar o instituído, o politicamente correto é por vezes uma obrigação, para abrir mentes fechadas e retrogradas. Ainda que não nos aceitem, nos chamem de tolos ou mal-educados, faremos da vida uma luta, e não, não temos medo, enfrentamos sem nenhuma condição qualquer filho-da-puta.
O mundo está cheio de hipócritas, cheio dos que pensam em tudo alcançar, mas falam meigo e com doce tom, acham que se bem embalada qualquer merda é produto bom.
Não, não queremos essa gente, são trapaceiros e perigosos, impedem o mundo de avançar, formatam cabeças escravas, usam receitas antigas. E não, não os queremos sejam belos ou feios, sejam cigarras ou formigas.
Esses alinhadinhos, se um dia mandam, o nosso mundo fazem mau sítio e do viver um inferno com caldeirões onde nos cozam. Por isso gritamos bem alto e sem medo: os alinhadinhos que se fodam.

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Reflexões

Os comunistas.

O combate ao anticomunismo primário.

Porque sempre me insurjo contra essa frequente esquizofrenia que é o anticomunismo sem razão. Sim, digo-o sem razão, porque muitos dos que praticam tal filosofia, se é que podemos referir-nos a uma corrente ideológica enferma como uma filosofia, nunca pensaram sequer o assunto. Creio ser apenas uma moda, essa coisa de catalogar os comunistas como alguém menor intelectualmente, mas sem terem uma justificação válida para isso. Muitos socorrem-se de frases feitas e desprovidas de provas para diabolizar os comunistas, mas não sustentam as afirmações em nada de palpável que não a sua tacanhez de espirito que temperam com alusões às ditaduras de base comunista. Esquecem que o sistema liberal capitalista, em que se enquadram ideologicamente a si próprios, se pode comparar na mesma proporção às ditaduras de teor fascista.

Os anticomunistas são só uns indigentes do pensamento, não sabem muito de humanidade nem de politica, mas presunçosamente julgam que sabem.

Pois eu continuo a achar que o verdadeiro comunista é aquele ou aquela que se rege por condutas de superior moral. A tal superioridade moral de que um célebre comunista (A.Cunhal) falava.

Agora Neruda para dizer de forma superior o que eu apenas consigo sentir, mas sem a qualidade natural, para saber escrever com a sua classe.

 

Pablo Neruda

Pablo Neruda – Os Comunistas

Passaram-se alguns anos desde que ingressei no Partido

Estou contente
Os comunistas formam uma boa família
Têm a pele curtida e o coração moderado
Por toda parte recebem cassetetes
Cassetetes exclusivos para eles

Vivam os espíritas, os monarquistas, os anormais, os criminosos de todas as espécies
Viva a filosofia com muita fumaça e pouco fogo
Viva o cão que ladra mas não morde, vivam os astrólogos libidinosos, viva a pornografia,   viva o cinismo, viva o camarão, viva todo mundo, menos os comunistas
Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que não lavam o pé ha quinhentos anos
Vivam os piolhos das populações de miseráveis, viva a fossa comum e gratuita, viva o anarcocapitalismo,viva Rilke, viva André Guide com seu corydonzinho, viva qualquer misticismo

Esta tudo bem
Todos são heróicos
Todos os jornais devem sair
Todos devem ser publicados, menos os comunistas
Todos os candidatos devem entrar em São Domingos sem algemas
Todos devem celebrar a morte do sanguinário de Trujillo, menos os que mais duramente o
combateram

Viva o Carnaval, os últimos dias de carnaval
Há disfarces para todos
Disfarces de idealistas cristãos, disfarces de extrema esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas

Mas cuidado: Não deixem entrar os comunistas
Fechem bem a porta
Não se enganem
Eles não têm direito a nada
Preocupemos-nos com o subjetivo, com a essência do homem, com a essência da essência
Assim estaremos todos contentes

Temos liberdade
Que grande coisa é a liberdade!
Eles não a respeitam,
Não a conhecem
A liberdade para se preocupar com a essência
Com a essência da essência

Assim tem passados os últimos anos
Passou o Jazz,
Chegou o Soul, naufragamos nos postulados da pintura abstrata, a guerra nos abalou e nos matou
Tudo ficava como está
Ou não ficava?
Depois de tantos discursos sobre o espírito e de tantas pauladas na cabeça, alguma coisa ia mal
Muito mal

Os cálculos tinham falhado
Os povos se organizavam
Continuavam as guerrilhas e as greves
Cuba e Chile se tornavam independentes
Muitos homens e mulheres cantavam a Internacional
Que estranho
Que desanimador
Agora cantam-na em chinês, em búlgaro, em espanhol da América

É preciso tomar medidas urgentes
É preciso bani-los
É preciso falar mais do espírito
Exaltar mais o mundo livre
É preciso dar mais pauladas e o medo de Germán Arciniegas

E agora Cuba
Em nosso próprio hemisfério, na metade de nossa maça, esses barbudos com a mesma canção
E para que nos serve Cristo?
Para que servem os padres?
Já não se pode confiar em ninguém
Nem mesmo os padres. Não vêem nosso ponto de vista
Não vêem como baixam nossas ações na bolsa

Enquanto isso sobem os homens pelo sistema solar
Deixam pegadas de sapatos na lua
Tudo luta por mudanças, menos os velhos sistemas
A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranhas medievais
No entanto, há gente que acredita numa mudança, que tem posto em prática a mudança,   que tem feito triunfar a mudança, que tem feito florescer a mudança
Caramba!

A primavera é inexorável!

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