Poesia

Envelhecer

Essa coisa de ir avançando nos dias
com o passo de apressado
sem que a marcha se possa refrear.
Pode ter coisas bem interessantes
se ensina a não fazer os erros de antes.

Chegam os sulcos na pele, um certo esmorecer
algumas habilidades já se não podem fazer
os atrevimentos trocam-se por tolerância.
Coisas que antes não contavam, passam a valer
cabeças sábias querem com calma bem viver.

Certas lutas não fazem mais sentido
o querer material fica menos importante
por vez das aventuras desejam-se as venturas.
Percebe-se que na vida o mais importante é não sofrer
nessa causa, mais importante do que o ter é o saber.

Devem evitar-se certos conflitos menores
não se deixar enganar ou sequer manipular
já que numa vida muitos o vão tentar.
De entre todas a peripécias a primeira é o nascer,
se aconteceu, a obrigação maior é: ser feliz ao envelhecer.

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Poesia

A beleza da loucura

Louco serei, isso é no entender de alguns
não me apoquento, nem por tal me incomodo.
Entre a raça humana os puros são nenhuns
e minha loucura é sã, com ela me acomodo.

Quero só lidar com aqueles a quem eu aprouver,
porque ainda há loucuras a que se atenda.
De entre as cabeças loucas alguma vai haver
com a loucura necessária pra que me entenda.

Uma bela deusa, entre as mulheres a mais pura,
em louco encantamento, pode ser justa e doce cura.

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Poesia

Milagre

São rosas:

Teus sorrisos
Teus dizeres
Teus olhares
Teus cuidados
Teu jeito lindo de ser
Teu ar sensível
Tua seriedade
Teu saber
Tua postura
Tua justeza
Tua gentileza
Tua humildade
Teu ajudar
Tua companhia

Tudo em ti são rosas

És finura, doçura e beleza
Foras alcançável a felicidade era certeza.

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Poesia

Por ti, voar…

Por ti posso voar,
não com asas e motores
nem porque salte de alto lugar.
Antes porque,
em alucinados sonhos,
muitas vezes voo e me junto a ti.

Tal como pior que a morte
é a vontade de morrer.
Pior que não te ter
é a vontade de que sejas minha.
Adivinhando-o impossível
apenas sonho, voo e me junto a ti.

Com um prazer proibido
possuo-te com intensidade,
em sonho libidinoso,
violento e pleno de vontade
sinto-te minha, só minha
em voo belo e sincronizado.

Em suprema convulsão
desperto e não estás,
eras só sublime desejo
de sonhar-te, de saber-te.
Agora sei, se te quero,
por ti, só posso voar…

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Eu sei, mas não devia.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti (1972)

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Passarões

Vivemos num mundo de figurões,
gentes que tudo querem para si,
são egoístas e invejosos seres
a quem dói mais a ventura alheia
que as suas próprias maleitas,
na arte da palavra são os aldrabões
no ganhar a vida, só, legalizados ladrões .

Dizem-se justos e bons trabalhadores
mas de trabalho apenas sabem mandar
julgam-se muito esforçados e dignos
opinando e tendo pedestal para falar,
vão criando seu desmesurado ego
de atoardas e despautérios são portadores
e dos frágeis da cabeça vis manipuladores

Sabe-se que são ricos e conceituados
que a muitos dão emprego com salário
com os milhões massajam seus pensares
e inquinam sua visão do mundo e do Homem
dão-se a atrevimentos e feias ousadias
sentem-se como instrumentos afinados
mas esquecem que vivem dos roubados.

São patetas, mentirosos e enganadores,
só é gente quem rouba ou da família herda.
Julgam-se finos, cultos por serem doutores
são mesmo, e só, uns passarões de merda.

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Um certo sonho

Povoam o âmago certos quereres
não terrenos nem posses materiais
são antes um conjunto de saberes
comportamentos e coisas que tais
com eles ajudar o mundo a mudar
dar-lhe outras leis e funcionamentos
fazê-lo um sítio mais justo para morar
dando-lhe bons e dignos instrumentos.

O Homem gere o mundo,
bem ou mal, decidem os que mandam
nos tempos últimos fizeram-no imundo
a vã cobiça e o individual comandam
descurou-se o sentido de bem-comum,
o fazer da terra sítio de bom viver
parece já não mover interesse algum
vive-se pra luta, o uno, com o mais que tiver.

Queria-se pois então um mundo belo
onde impere a justa distribuição da renda
sem que uns tenham tudo e outros nem um pelo
o acabar das regras estupidas sem quem as entenda
quer-se um mundo onde todos tenham instrução
comida, habitação, saúde e um estado a caminhar
que quando sem emprego, haja renda sem condição
e não se impeça, rico ou pobre, de continuar a sonhar.

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