Reflexões

Quando em dias difíceis de turbos sentimentos, sofridos por doentios incumprimentos materiais, qualquer um que se chegue perto é companhia demais.

Ficar sós perante a agrura da vida, escutando, lendo, ou interagindo despessoalizadamente com quem dá sabedoria ou tão só simplesmente dormindo, é terapêutico e ajuda bastante nessa coisa que é o ir existindo.

Em que ajuda tal isolamento? Ajuda em não ter que dar justificações, a não incomodar com más disposições, é que dificilmente aconselha bem quem nunca esteve nas mesmas condições.

Dinis Jesus

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Reflexões

CERTA «BRUTALIDADE INTELECTUAL» CONSIDERADA COMO DEVER

Quando tive finalmente a oportunidade de o conhecer, mesmo se o não tivesse achado uma pessoa simpática, teria sido fatalmente levado a mudar de atitude para consigo, pois, assim que se encontra alguém em carne e osso, compreende-se logo que se trata de um ser humano e não de uma espécie de caricatura encarnando determinadas ideias. É em parte por esta razão que nunca frequento os meios literários, porque sei por experiência própria que, a partir do momento em que travo conhecimento com qualquer indivíduo, e que lhe falo, me torno definitivamente incapaz de o tratar com brutalidade intelectual, mesmo quando sinto ser um dever fazê-lo – tal e qual como os deputados trabalhistas que se perdem para sempre para a causa do partido assim que um duque lhes dá uma palmadinha nas costas.

(carta enviada ao poeta e crítico literário Stephen Spender)

George Orwell

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Reflexões

A questão portuguesa não é de se falar ou não falar português. É de ser ou não ser à maneira portuguesa, que é ser variadíssimas coisas ao mesmo tempo, e por vezes coisas que parecem contraditórias, e é a possibilidade de tomar um tema e olhar de várias maneiras, conforme o temperamento da pessoa, a época em que viveram, a linguagem de que usavam, a maneira como se sentiam na vida.

Agostinho da Silva

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Reflexões

Mais umas poucas Dúzias de Homens Ricos

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? – Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

Almeida Garrett

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