Poesia

Envelhecer

Essa coisa de ir avançando nos dias
com o passo de apressado
sem que a marcha se possa refrear.
Pode ter coisas bem interessantes
se ensina a não fazer os erros de antes.

Chegam os sulcos na pele, um certo esmorecer
algumas habilidades já se não podem fazer
os atrevimentos trocam-se por tolerância.
Coisas que antes não contavam, passam a valer
cabeças sábias querem com calma bem viver.

Certas lutas não fazem mais sentido
o querer material fica menos importante
por vez das aventuras desejam-se as venturas.
Percebe-se que na vida o mais importante é não sofrer
nessa causa, mais importante do que o ter é o saber.

Devem evitar-se certos conflitos menores
não se deixar enganar ou sequer manipular
já que numa vida muitos o vão tentar.
De entre todas a peripécias a primeira é o nascer,
se aconteceu, a obrigação maior é: ser feliz ao envelhecer.

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Reflexões

Clarividência

Perante a impossibilidade financeira do devedor, tanto vale mais ou menos assertividade na cobrança por parte do credor.
É impossível cobrar o incobrável, como será impossível cobrar mais rapidamente que o possível, o que ainda é passível de ser cobrado.
Tal constatação não tem nada a ver com moral nem vigarice, tem e tão só a ver com a dureza da matemática e serve para os gregos enquanto estado soberano europeu, como serve para qualquer cidadão do mundo.
Já perante a honestidade do devedor e a firme vontade de pagar, a atitude mais acertada por parte do credor inteligente, é o saber esperar em vez de achar que todos os fundos possíveis ou impossíveis devem ir na sua direção e que cada um lute por si na prossecução do mesmo interesse…
A pressão do credor sobre o devedor impossibilitado, só pode gerar desespero e maior desnorte, como tal o ficar mais longe da possibilidade de atingir o que se deseja, cobrar.
Não perceber, ou percebendo não aceitar tal evidência, revela da parte dos credores uma falta de inteligência ou de bom senso que poderá ter como castigo, o aumentar das suas perdas.
Perante montantes incobráveis, estupidez, é manter-se a sofrer por eles, numa atitude constante de vitimização, atitude que não alcança outra coisa que não a autoflagelação.

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Reflexões

Os tinhosos.

Ele há uns quantos, que não tendo doença de pele, são TINHOSOS no carater e no seu estar. Andam pelo mundo numa atitude egoísta e a todos só querem enganar, fazem-no de forma comezinha e sem golpes de grande rasgo ou dimensão, apenas gostam de mamar.

São aparentemente muito honestos e rigorosos, de inatacável moral ou comportamento.
Com pensadas e ardilosas estratégias a todos se mostram impolutos e cordatos, sem extremadas posições, de forma a poder colher a todo e qualquer momento.

Toda a classe tem desta gentalha, há-o analfabeto agricultor e até o há super formado doutor.
Pensam antes de mais em si e em proteger seu património, não se dando a ver como pelintras não fazem outra coisa que pelintrar, e por serem assim, são da boa e sã convivência o infrator.

Como especial característica têm a de quase nunca pedir diretamente, e para obter só esperar.
Em todas as situações, nunca se mostram definidos, sempre doceis e meigos sempre esperam que outro resolva as presentes situações, se contas, para sair delas esperam até alguém pagar.

Em certas divisões, são rigorosos é a matemática a comandar, tudo só para o mal ser ameno.
É que no fim de todas as contas feitas são sempre os outros a perder, porque nesse dividir há sempre algum querer escondido e com intenção, coisas de quem é no pensar muito pequeno.

Se em alguma postura, boa ou má, muito os distingue é terrível atitude, e chama-se avareza.
E alguns são avaros por não terem o suficiente para obter o que em cada hora querem, mas outros mesmo tendo o necessário querem coisas, mas se possível outro que faça a fineza.

Também no uso de outras benesses e favores, são os tinhosos uns verdadeiros artistas.
Com direitos quase divinos, sujeitam de forma mal-educada, terceiros a trabalhos e afazeres para os quais sejam competentes, fazem-no maquiavelicamente, encantando como flautistas.

Como outros humanos, fazem mais coisas bem que mal, e não são uns patológicos criminosos.
Têm até alguns, atinadas competências, outros são até bem capazes e a certas tarefas vão de forma audaz.

Não são assumidamente má gente, são e só, apenas uns tinhosos.

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Poesia

A beleza da loucura

Louco serei, isso é no entender de alguns
não me apoquento, nem por tal me incomodo.
Entre a raça humana os puros são nenhuns
e minha loucura é sã, com ela me acomodo.

Quero só lidar com aqueles a quem eu aprouver,
porque ainda há loucuras a que se atenda.
De entre as cabeças loucas alguma vai haver
com a loucura necessária pra que me entenda.

Uma bela deusa, entre as mulheres a mais pura,
em louco encantamento, pode ser justa e doce cura.

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Poesia

Milagre

São rosas:

Teus sorrisos
Teus dizeres
Teus olhares
Teus cuidados
Teu jeito lindo de ser
Teu ar sensível
Tua seriedade
Teu saber
Tua postura
Tua justeza
Tua gentileza
Tua humildade
Teu ajudar
Tua companhia

Tudo em ti são rosas

És finura, doçura e beleza
Foras alcançável a felicidade era certeza.

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Diário

Estranhas vontades de nos manipularem.

Hoje duas coisas me deixaram inquieto das notícias que se vão ouvindo e lendo, com ouvidos e olhos já cuidadosos e pouco atreitos a manipulações… Irritaram-me o Correio da Manhã pela sua habitual falta de rigor no caso Sócrates e o Sr. Carlos César por desvalorizar o que antes valorizava tanto.

Costumando tratar apenas um tema em cada texto, hoje porque me apetece, e só por isso, vou falar de dois…

Primeiro

Ainda o malfadado caso Sócrates que tinha tudo para apenas ser uma calma investigação judicial a suspeitas de corrupção, branqueamento e fraude fiscal, não fora termos um MP e um Juiz de Instrução que se julgam justiceiros e gostam de dar publicidade a coisas que se feitas discretamente poderiam até produzir melhores resultados para a investigação, mas adiante.

O pasquim de bairro gigante, Correio da Manhã, mais uma vez apresenta títulos espalhafatosos e mentirosos na tentativa de causar alarido e manipular algumas cabeças mais desinformadas.

Ora escrevem os serventuários que o recurso apresentado pelos advogados de José Sócrates não contesta as provas dos crimes de que está acusado… Aqui fica o titulo da espalhafatosa noticia

Poderá alguém minimamente esclarecido ou mesmo só possuidor de bom senso levar um titulo destes a sério?
Cremos de todo que não e que é até um atentado à dignidade e intelectualidade do comum cidadão.
A ver se nos entendemos, não existem provas nenhumas, essas só se fazem no julgamento. Poderão eventualmente existir indícios de haverem sido cometidos crimes, mas que ainda não estão vertidos numa acusação e estão ao que se sabe ainda “ em segredo de justiça “ na fase de inquérito, não sendo por isso do conhecimento da defesa.

Pergunto eu:

Como pode a defesa rebater uma coisa que oficialmente não conhece? Apenas pelo que lê em qualquer pasquim com a necessidade de vender os seus folhetins?

O não falar de uma coisa que não conhece é automaticamente a assunção dos factos relatados pelos tais pasquins?

Poderia a defesa criar um capítulo no recurso que tivesse como titulo “ Adivinhação” e depois discorrer no articulado desse capítulo uma defesa ao que os pasquins dizem ser factos em inquérito e que possivelmente poderão vir a estar descritos na acusação?

Este recurso da defesa é ou não apresentado apenas para contestar os procedimentos judiciais e enquadrar, segundo o entendimento e interesses do Eng.º Sócrates, os tais procedimentos na lei vigente? Contestando essencialmente os atos praticados até aqui pelo ministério público e pelo juiz de instrução.

Parece-nos que da resposta que nós próprios alcançamos para as nossas questões não podia a defesa nunca contestar factos que nunca leu em nenhum sitio credível e com os quais nunca foi confrontada formal e legalmente.

Daí a dizer-se, que por não contestar tais notícias de cordel, se está a admitir que o dinheiro apreendido e investigado é do próprio Eng.º Sócrates vai apenas a enormidade da manipuladora e mal formada consciência de quem escreve tais disparates…

Sobre este assunto nada mais a dizer… Entendam os leitores deste diário ou do tal pasquim o que mais lhe aprouver.

Segundo

Ora não é que ouvimos, na TSF, o Sr. Carlos César, presidente do PS, dizer que não entende “porque raios” perguntam os jornalistas acerca da pequena margem que separa o PS dos partidos da maioria que governa o país nas sondagens, e o mal-estar que isso pode estar a causar em algumas hostes socialistas.

Responde de forma quase irónica o presidente do PS que quem está a perder são os partidos de governo e que estranha que se preocupem com os poucos pontos de vantagem nas sondagens e o não descolar do PS da maioria.

Novas perguntas, para tentar alcançar respostas que esclareçam:

Não foi porque as vitórias do PS de Seguro foram por margem relativamente pequena, que se propôs Costa renovar a liderança para trazer novo “elan”, melhores sondagens e resultados?

Não foi por uma tal vitória de “ Pirro” que se correu com Seguro?

Como se pode então agora desvalorizar o que antes tinha, para estes mesmos, tanto valor?

Poderemos confiar em quem nos tenta assim passar atestados de mediocridade?

À última pergunta respondemos convictamente: Não podemos confiar. São incoerentes e manipuladores e não são por isso dignos de confiança.

Dizemos até, em tom preocupado, Seguro ganhou todas as eleições a que concorreu e já nem temos a certeza que Costa seja capaz de ganhar as primeiras a que vai concorrer.

Se nos deixamos manipular, nas duas situações, por esta gentinha de seriedade muito discutível, temos o país que merecemos.

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Poesia

Por ti, voar…

Por ti posso voar,
não com asas e motores
nem porque salte de alto lugar.
Antes porque,
em alucinados sonhos,
muitas vezes voo e me junto a ti.

Tal como pior que a morte
é a vontade de morrer.
Pior que não te ter
é a vontade de que sejas minha.
Adivinhando-o impossível
apenas sonho, voo e me junto a ti.

Com um prazer proibido
possuo-te com intensidade,
em sonho libidinoso,
violento e pleno de vontade
sinto-te minha, só minha
em voo belo e sincronizado.

Em suprema convulsão
desperto e não estás,
eras só sublime desejo
de sonhar-te, de saber-te.
Agora sei, se te quero,
por ti, só posso voar…

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Reflexões

Somos enganados…

Somos enganados…

Enganam todos os dias, desde que nasce o sol até que se esconde a lua. Dizem-te que deves viver uma pré-determinada vida, como sendo essa a tua.

Enganam porque hoje vive-se em estado de escravidão voluntária, servindo interesses. Tudo para que nos etiquetem de honestos e alinhados, ainda para com os parcos ganhos alcançar pagar tudo o que nos instigam a comprar, com a ilusão de que nos melhora a vida e que tudo são benesses.

Enganam porque nos mentem os arautos da moral, dizem que sucesso só chega antes de trabalho na ordem alfabética do dicionário… mentira, mentira, mentira. A maioria dos bem-sucedidos financeiramente fala muito de trabalho mas nem sabe o que isso é, e sua riqueza não é do seu trabalho que a tira.

Enganam, nunca ninguém acumulou dinheiro trabalhando, ou se ganha por sorte, ou se ganha especulando, ou se ganha roubando ainda que a coberto de legalizados contratos, ou capitalizando do trabalho do seu semelhante. O produto do trabalho de cada individuo dá para pagar contas e sobreviver, não dará nunca para ir mais adiante.

Enganam os que decidem e palram com propósito e sabedoria. Pregam comportamentos para terceiros sempre tentando convencê-los à vida dos pregadores dar melhoria.

Enganam e não dizem que todos somos pessoas e seres com igual importância, independentemente do estado da economia. Não podemos deixar voltar o tempo em que o mais pobre trabalhava duro e só o rico é que comia.

Enganam dizendo certos papagaios com perigosa e falsa demagogia que é pelo pouco trabalho que temos fraco país. Esquecem que são as políticas cinzentas e alinhadas, sem visão de coletivo e com interesse económico só de alguns, a causa primeira da fraqueza que essa gente diz.

Enganam pois não há honestidade na palavra de alguém que ganha de vencimentos milhões mas ao pobre diz que tem de perder dos seus poucos tostões. Essas gentes bem vestidas e com gravata a única coisa que sabem ser é perigosos aldrabões.

Enganam mas sabem que todos os que ganham míseros salários podem mais que aquilo que lhes dizem, depende deles o sistema funcionar. Os escravos esclarecendo-se, informando-se, mentalizando-se que o coletivo é o bem mais importante, será caminho único para os abutres condicionar.

Enganam também, os que quando sobem um pouco e já não passam dificuldades, tratam os do seu grupo de origem como mandriões. Esses são só pertença a um bando de mentecaptos e malformados pseudo-burgueses que não passam de coitados figurões.

Sim, se deixarmos que nos manipulem e nos maltratem e ainda os aplaudirmos, somos e bem, muito enganados.

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Poesia

Eu sei, mas não devia.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti (1972)

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