Reflexões

A questão portuguesa não é de se falar ou não falar português. É de ser ou não ser à maneira portuguesa, que é ser variadíssimas coisas ao mesmo tempo, e por vezes coisas que parecem contraditórias, e é a possibilidade de tomar um tema e olhar de várias maneiras, conforme o temperamento da pessoa, a época em que viveram, a linguagem de que usavam, a maneira como se sentiam na vida.

Agostinho da Silva

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Poesia

Momentos Felizes

Porque é grande certa dor
no mais duro dos sofreres
pelas desgraças de uma vida
na cabeça é grande a confusão
e o sentir um violento turbilhão.

Mas existes tu, meu bem maior
és a ambição de muito tempo
numa falta constante e eterna
de quem na sombra vive comigo
num querer-te mais do que amigo.

Cada dia em que sonho ver-te
brilha o sol em feio dia cinzento
a lua dança cheia, em negro breu
e com a vergonha dos mais petizes
sinto contigo, momentos bem felizes.

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Poesia

O sexo comanda a vida

Os jogos começam cedo

no descobrir colectivo

no gesto subentendido

no procurar sem saber


Tanta falta, tão escondida

tanta mentira mentida

tanta busca de aprender

e a vontade a mandar,

e os adultos a não querer


e as coisas a acontecer…


Depois, vem o corpo e manda;


vem a sorte e o acaso

mais a vida convivida

que nos ensina sabores

preferências e valores

coisas que vão dar azo

a uma culpa indefinida…


Paixões, ímpetos, calores,

amores breves no recreio

aventuras sem ter freio


– E o sexo comanda a vida


E desculpa-me Gedeão

homem maior, professor,


há momentos em que creio

que mais que o sonho e o valor

mais que o talento ou a dor

mais que a vida acontecida

mais mesmo que o próprio amor

mérito, glória ou louvor.


Tem dias, secretos dias

tem horas, secretas horas

momentos acres, desejos.


Em que nos vem um ardor

uma razão cá de dentro

mais forte que o pensamento


Soprando mais do que o vento

na montanha mais subida.


Nesses momentos sabemos, 

neste modo em que vivemos,


que o sexo comanda a vida…


Não que não sonhe a justiça

sonho perfeito de mim;


Não que não busque valores

exegeses superiores.


Mas olhando à minha volta

o desejo que anda à solta

mais a raiva fratricida

não posso deixar de ver.


Na cupidez, nos negócios

nas promoções,
no valor

que faz subir e descer

esta bolsa do viver.


Nem certeza, nem verdade

nem riqueza garantida


Ai amigos! Ai cidade!


– O sexo comanda a vida.


Essa menina bonita

que rebenta de esplendor,


no rolar lento das ancas

no lamber sábio da boca

vai ter muito mais valor.


Que o valor que nada vale

dessa outra,
assustada, 

sabedora das matérias

competente e aplicada


Mas borbulhenta,
feiosa,

sem graça,
quase fanhosa

vinte valores no trabalho

mas negativa no jeito

sem lábios,

quase sem peito…


– Que lugar vai ter?

Que saída?


– Cientista,
tradutora?


– Excelente investigadora?


Ai, desculpa-me,
Gedeão
que injustiça tão sofrida

não há respeito sequer

é difícil ser mulher!

– Mas o sexo comanda a vida.



Mas cara amiga,
te digo


Se o jovem executivo

que te é apresentado

alto, composto, perfeito

elegante, bem vestido

encadernado a preceito


Apertar a tua mão

de um jeito mais que estudado

e te sorrir num bailado

e te falar no ouvido.


É mais que certo e sabido

perante um cantor de fado

não há norma na medida

nem recato nem respeito

nem olhar bem comportado


– Tu sentes calor no peito!…


– O sexo comanda a vida…


E se pensam que a razão
a
busca da tal subida

é a riqueza,

o dinheiro

ter carros,
poder,
fortuna

e a vida favorecida…


A mim, dá-me a sensação

que o sucesso financeiro

é só uma contribuição.


– Apenas mais um caminho

para servir na corrida

acessória à sedução.


Pois desculpa-me Gedeão

mais que o sonho a que presida,

por desgoverno,
paixão
loucura fútil,
pressão,

por estupidez animal…


Ditadura visual

ou pecado venial

da tal utopia querida

nada sobrou,

nem moral.


– O sexo comanda a vida!

Pedro Barroso

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Reflexões

Mais umas poucas Dúzias de Homens Ricos

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? – Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

Almeida Garrett

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Poesia

Sonho de mulher

Gosto tanto de ti

Gosto porque és meiga
também porque és amiga
és honrada, honesta e leal
tens sóbria beleza, és divina,
sedutora és, sem precisar ser fatal.

De jovial simplicidade e nobreza
és completa na tua singeleza
carinhosa e calma és uma doçura
diligente e esforçada, és inteligente
na dureza da vida manténs a postura.

És o que és, e por isso, gosto tanto de ti.

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