Poesia

Elogio da dialética.

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o mau começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos!

Quem ainda está vivo não diga: nunca!
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí algo que o retenha, liberte-se!
E nunca será: ainda hoje.
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

Bertold Brecht

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Diário

A importância de Cuba.

Hoje e no seguimento do mediatismo da reunião entre Barack Obama e Raul Castro no Panamá, apetece-nos questionar porque se mostra tão importante e motivo de tanto alarido um país da dimensão de Cuba e com tão pouca influência económica no mundo. Sim porque a anormalidade que confere importância nesta situação é a presença do Presidente de Cuba já que Obama é costumeiro nestas coisas. Concluímos daqui que um dos únicos modelos socialistas vigentes no mundo, mesmo num pequeno país como Cuba, ainda tem um peso especifico importante que não depende da questão económica mas sim da confrontação de modelos, reconhecendo-se assim ao modelo cubano uma dimensão e capacidade que muitos teimam em tentar desacreditar por todos os meios.

Esperamos sinceramente que tais encontros e aproximações tragam mais liberdade e meios ao povo cubano mas não lhe retirem os evidentes ganhos da revolução socialista, como são o sistema educativo e o sistema nacional de saúde cubanos. Em abstrato sempre nos parecem bem as relações cordiais entre países vizinhos, mas ambicionamos que esta atitude dos americanos não seja apenas o tentar alcançar a americanização de Cuba por um processo que consiga o que não conseguiu o bloqueio.

Veremos o que permite o congresso, maioritariamente republicano a um aparentemente bem intencionado democrata como Obama.

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Reflexões

A verdade dos políticos é coisa efémera e sempre serpenteante por entre a verdade dos factos. É torcida e retorcida em função do que em cada momento lhes parece, a eles políticos, que vai convencer mais eleitores ou possíveis eleitores. Assim raramente dizem as coisas tal como são realmente e ao invés de esclarecerem os cidadãos apenas os enganam.

Perante a constante manipulação das verdades a cada momento, sempre que algum político, menos alinhado com as elites políticas reinantes, diz algo realmente verdadeiro é encarado com desdém e incredulidade, não sendo considerado como opção válida para governar.

Estamos assim perante uma equação de resolução impossível e não sabemos a quem atribuir culpas pelo mal que temos, se aos políticos por serem mentirosos mas que alcançam o que pretendem ou aos cidadãos por não perceberem que têm de se esforçar por entender as coisas e por não tentarem saber em que fundamentam os políticos as ideias que têm de mundo e assim serem quase sempre enganados. Sabemos que a cultura política e a busca de informação válida é coisa trabalhosa, mas é, ao invés da intuição ou percepção de cada um sobre os outros, caminho único para ficar mais próximo da escolha acertada.

De uma coisa temos absoluta certeza: quanto mais inculto e medíocre for um universo eleitor, maior a probabilidade de políticos medíocres serem eleitos.

Dinis Jesus

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Reflexões

Prisões…
Hoje muitos trabalham apenas pelo suficiente para terem o mínimo, esse que lhes confere a segurança do existirem, alimentar-se e ir pagando as contas obrigatórias do dia-a-dia, mas não lhes dá a liberdade de serem o que querem.
Quem quer essa segurança, podes sempre cometer um qualquer crime e ir viver na prisão, terá esse mínimo garantido, e da mesma maneira, apenas perde a liberdade.

Dinis Jesus

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Poesia

No caminho com Maiakóvski

Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem. Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm a ninguém é dado repousar a cabeça alheia ao terror. Os humildes baixam a cerviz; e nós, que não temos pacto algum com os senhores do mundo, por temor nos calamos. No silêncio de meu quarto a ousadia me afogueia as faces e eu fantasio um levante; mas amanhã, diante do juiz, talvez meus lábios calem a verdade como um foco de germes capaz de me destruir.

Olho ao redor e o que vejo e acabo por repetir são mentiras. Mal sabe a criança dizer mãe e a propaganda lhe destrói a consciência. A mim, quase me arrastam pela gola do paletó à porta do templo e me pedem que aguarde até que a Democracia se digne aparecer no balcão. Mas eu sei, porque não estou amedrontado a ponto de cegar, que ela tem uma espada a lhe espetar as costelas e o riso que nos mostra é uma tênue cortina lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo e não os vemos ao nosso lado, no plantio. Mas ao tempo da colheita lá estão e acabam por nos roubar até o último grão de trigo. Dizem-nos que de nós emana o poder mas sempre o temos contra nós. Dizem-nos que é preciso defender nossos lares mas se nos rebelamos contra a opressão é sobre nós que marcham os soldados. E por temor eu me calo, por temor aceito a condição de falso democrata e rotulo meus gestos com a palavra liberdade, procurando, num sorriso, esconder minha dor diante de meus superiores.

Mas dentro de mim, com a potência de um milhão de vozes, o coração grita – MENTIRA!

Eduardo Alves da Costa ( poeta brasileiro )

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Poesia

Intermezzo

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora me levam também
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertolt Brecht

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