Diário

A comida como pagamento de trabalho ou a falta total de humanismo.

Estava determinado a falar da perda do campeonato pelo meu Benfica. Mas eis que vejo esta notícia e de novo volta a minha costela humanista a falar antes da costela emocional, ainda que por isso me continuem a achar muito chato.
A notícia de que falo versa a comida em troca de trabalho, o pior de tudo é que todas as opiniões que ela transmite, admitem a situação como coisa boa. Será que admitem a escravatura como coisa normal? Os escravos também tinham alimentação, até com sorte e se bem comportados um dia a carta de alforria. Talvez também estes, um dia trabalhem como assalariados e voltem a ter a dignidade de poder comprar a sua comida.
A tal notícia da SIC notícias
Esta coisa, que alguns até acham de coisa boa, mais não é que uma atitude caridosa, mas agora requerendo por ela uma compensação, o trabalho sem salário. Se a causa solidária só por si já me choca, não pelo ato solidário em si, mas pela situação que a montante o motiva e que se chama necessidade por pobreza extrema. Não posso assim de nenhuma maneira aceitar esta situação como coisa boa.
Bem sei que alguns, falsos moralistas militantes, virão rapidamente dizer que isto é melhor que roubar ou recorrer a atitudes imorais para ter sustento. Para alguns desentendidos e desprovidos de valores humanistas, até poderá ser. Mas para mim que venho de uma família em que um dos progenitores passou fome na sua infância e adolescência, tal forma de pagamento representa o retorno à escravatura e à condenação de alguns à indignidade, mesmo trabalhando.
Revolta-me a necessidade de haver pessoas que se sentem devidamente compensadas por não terem fome. Lembro-lhes que qualquer animal está nessa situação, ou porque é doméstico e o seu dono lhe dá comida ou então porque é selvagem e a caça ou a recolha na natureza lhe matam a fome. Estaremos, alguns, a transformarmo-nos em animais domésticos?
Lembro ainda os meus pacientes leitores que alguns animais, por nobreza de carater, preferem morrer de fome que serem alimentados em regime doméstico. Se calhar eu sou um desses, serei dos que preferiria morrer de fome a trabalhar por comida. Chamai-lhe o que quiserem, mas ser domesticado por este modelo ultraliberal capitalista não serei nunca.
Entristece-me ainda mais por ver que muitos já se renderam ao sistema, mais ainda por ver neles, gente bem formada e que pôde andar na escola, como tal até fala bem. Misera sorte, esta que leva alguns a aceitarem o castigo como razoável medida, apenas para não passar fome.
Esta situação é a clara subversão da caridade, já que esta deveria dar comida sem pedir rigorosamente nada em troca. Só posso classificar esta condição como voltar à condição de animal doméstico, mas não de estimação e antes de trabalho, ou então pior ainda ao regime de escravatura. Em que catecismo estará esta como boa condição? Esta será medida de direita ou de esquerda? Não creio que seja pregada em nenhuma filosofia que tenha a humanidade como centro fulcral do universo.
Costumo afirmar que sou de esquerda, mas que aceitarei sem dificuldade o catecismo da igreja católica como modelo político sem barafustar muito. Pois a religião católica prega uma filosofia que não me custará a aceitar como boa em termos distributivos, isto apenas porque valoriza a condição humana em primeiro lugar e obriga aos mais abastados a alimentar os que não têm sustento, mas misericordiosamente sem pedir nada em troca e sem segundas intenções, até e apenas a de mostrar maior capacidade será entendida como pecado.
Este tema e o falar dele abala-me profundamente, pois é a admissão, no mundo ocidental, que alguns apenas pela pobreza causada pelo desemprego, sejam mais ou menos capazes, se terão de sujeitar aos que têm mais posses e capacidade económica.
VIVEMOS NESTE MISERÁVEL MUNDO NOVO, QUE BEM PODIA SER O TAL ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, MAS QUE POR CAUSA DA ERRADA DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA PRODUZIDA POR TODOS, NOS ATIRA PARA OS TEMPOS DO FEUDALISMO.
QUANDO DIGO POR TODOS, NÃO ESTOU A DIZÊ-LO ESQUECENDO QUE ALGUNS NÃO TRABALHAM, MAS PORQUE SEI QUE SER UM SIMPLES CONSUMIDOR JÁ CONFERE LUGAR UTIL A QUALQUER CIDADÃO, TAL É IMPORTANTE MANTER O CONSUMO EM NIVEIS QUE VÃO POSSIBILITANDO HAVER EMPREGO PARA OS OUTROS QUE AINDA O VÃO TENDO.
SERÁ QUE ALGUNS COM CONSCIÊNCIAM MAIS HUMANISTA TERÃO DE VOLTAR À ANIMALIDADE DO APELO AO PEGAR NAS ESPINGARDAS?
19-05-2013
Dinis Jesus

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