Poesia

Erva Daninha a Alastrar

Só eu sei que sou terra
terra agreste por lavrar
silvestre monte maninho
amora fruto sem tratar

Só eu sei que sou pedra
sou pedra dura de talhar
sou joga pedrada em aro
calhau sem forma de engastar

A cotação é o que quiserem dar
não tenho jeito para regatear
também não sei se eu a quero aumentar
porque eu não sei

Porque eu não sei se me quero polir
também não sei se me quero limar
também não sei se quero fugir
deste animal
que anda a procurar

Só eu sei que sou erva
erva daninha a alastrar
joio trovisco ameaça
das ervas doces de enjoar

Só eu sei que sou barro
difícil de se moldar
argila com cimento e saibro
nem qualquer sabe trabalhar

Em moldes feitos não me sei criar
Em formas feitas podem-se quebrar
também não sei se me quero formar
porque eu não sei

Porque eu não sei se me quero polir
também não sei se me quero limar
também não sei se quero fugir
deste animal
que anda a procurar

António Variações 1984

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Poesia

Sem medida

Amar bem é coisa difícil,
mais será se o desconhece o ente amado
ou se não desconhece, retribuir não pode ou quer
razões várias, qual delas a pior, seja até erro qualquer
de todas a mais dolorosa, por compromisso estar ocupado.

Como reza o Pessoa
esse tal amor amigo, o da medida precisa
que sendo coisa difícil, pode até ser boa.

Ser com liberdade e sem serrado compromisso
faz o amor ser belo e completamente insubmisso.
Enche a pessoa de doce lembrança
mantendo forte certo sentir, o da eterna esperança.

O amar sem posse, muito e sem medida,
pode até ser coisa una e das mais belas da vida.

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Poesia

Pecado

Tu és uma deusa, bruxa ou mulher?
Pura, gentil e formosa és uma musa
Sei que te quero mas não posso ter,
Pois minha consciência já me acusa.

És assim apenas o sonho recorrente,
Nas noites sem frio em que eu tremo,
Por ti clamo com o desejo indecente
E contigo chego ao prazer supremo.

Esteja eu onde esteja e quem estiver
Nessa tal entrega a libidinosa vontade
Estás tu, não outra que áquilo convier.

Mas qual culpa a minha em tais dores,
Essa que de ti me preenche e invade,
E só contigo me mostra belas cores?

Dinis Jesus 15-01-2014

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Poesia

Doce espera

Doçura e beleza
em mente pura
de sorriso bom e calmo
és uma flor na natureza.

Meiga e doce
tranquila e linda
solidária e justa
equilibrada e meiga
discreta e cuidada
és boa pra ser amada.

De compromissos fortes
a esperança de ter-te
é longa e dura espera
ante a traição impossível.
Num embalo e doce sonhar
até a dor queda apetecível.

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Diário, Poesia

Hino do glorioso SLB

SER DO BENFICA

Sou do Benfica
Isso me envaidece
Tenho a genica
Que a qualquer engrandece
Sou de um clube lutador
Que na luta com fervor
Nunca encontrou rival
Neste nosso Portugal.

Ser Benfiquista
É ter na alma a chama imensa
Que nos conquista
E leva à palma a luz intensa
Do sol, que lá no céu
Risonho vem beijar
Com orgulho muito seu
As camisolas berrantes
Que nos campos a vibrar
São papoilas saltitantes.

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Poesia

Meu vício

Porque sempre és enorme desejo
e na cabeça a constante tentação,
os dias ficam mais lindos se te vejo
és timidez e descompassar do coração.

Com respeito olhamos pro mundo
fugazes estares, esvai-se cada hora
desejo, vício, sei lá, mas é profundo
é tudo parecer pouco, quando vais embora.

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Poesia

Elogio da dialética.

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o mau começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos!

Quem ainda está vivo não diga: nunca!
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí algo que o retenha, liberte-se!
E nunca será: ainda hoje.
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

Bertold Brecht

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Poesia

No caminho com Maiakóvski

Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem. Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm a ninguém é dado repousar a cabeça alheia ao terror. Os humildes baixam a cerviz; e nós, que não temos pacto algum com os senhores do mundo, por temor nos calamos. No silêncio de meu quarto a ousadia me afogueia as faces e eu fantasio um levante; mas amanhã, diante do juiz, talvez meus lábios calem a verdade como um foco de germes capaz de me destruir.

Olho ao redor e o que vejo e acabo por repetir são mentiras. Mal sabe a criança dizer mãe e a propaganda lhe destrói a consciência. A mim, quase me arrastam pela gola do paletó à porta do templo e me pedem que aguarde até que a Democracia se digne aparecer no balcão. Mas eu sei, porque não estou amedrontado a ponto de cegar, que ela tem uma espada a lhe espetar as costelas e o riso que nos mostra é uma tênue cortina lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo e não os vemos ao nosso lado, no plantio. Mas ao tempo da colheita lá estão e acabam por nos roubar até o último grão de trigo. Dizem-nos que de nós emana o poder mas sempre o temos contra nós. Dizem-nos que é preciso defender nossos lares mas se nos rebelamos contra a opressão é sobre nós que marcham os soldados. E por temor eu me calo, por temor aceito a condição de falso democrata e rotulo meus gestos com a palavra liberdade, procurando, num sorriso, esconder minha dor diante de meus superiores.

Mas dentro de mim, com a potência de um milhão de vozes, o coração grita – MENTIRA!

Eduardo Alves da Costa ( poeta brasileiro )

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