Diário

Quando me sinto fascista…

Declaração de interesses:

Sou Marxista convicto, descendo de uma família de caçadores e já cacei, no passado, durante alguns anos, nunca gostei de caça maior e nunca atirei a um veado, já javalis matei um ou dois quando caçava de salto às perdizes já lá vão mais de vinte cinco anos.

Digo que me sinto fascista porque a “Nouvelle Vague” de humanos que se dizem democráticos e progressistas se mostram muito indignados com a matança de animais que foram ali, num curral com 2500 hectares na Herdade da Torre Bela, criados, alimentados e mantidos para serem caçados. Numa altura de dicotomias, se eles são democráticos e eu não concordo com eles…só posso sentir-me fascista.

 

 

Vamos, pois, ao que pretendo dizer sobre a propalada “Matança da Herdade da Torre Bela”

 

Desde ontem que as redes sociais estão inundadas com criticas e comentários ao que se passou numa Herdade privada algures no concelho da Azambuja, hoje acordaram para o facto as televisões e os jornais e tem sido um zurzir a torto e a direito sobre proprietários, organizadores e caçadores que participaram numa pseudo-montaria que abateu umas centenas de animais, por acaso eram veados, corços e javalis e certamente seria diferente, a coisa, se fossem ratos, coelhos, codornizes, frangos, lebres, perdizes, faisões, pombos, tordos ou outro bichito qualquer que não tivesse o impacto fotográfico dos veados, já que os javalis impactariam muito menos nas mentes de muitos pseudo-defensores dos animais e já são frequentemente abatidos às centenas em algumas montarias.

Eram cerca das dez horas da manhã de hoje quando com espanto ouço o nosso ministro do ambiente, Matos Fernandes, pessoa a quem normalmente reconheço saber técnico, bom senso e excelente escolha de palavras, a embarcar numa conversa alinhada com a histeria anti caça e anti abate animais “selvagens” embora sempre referindo que a atividade da caça lhe parece legitima e até útil à preservação das espécies e ao rendimento do interior desertificado do nosso país.

Algumas perguntas:

– A caça é uma atividade legal ou não?

– As montarias são ou não umas das formas de caça autorizadas?

– Há limites para o número de abates por caçador e por espécie nesta modalidade de caça nas zonas de ordenamento cinegético especial vulgo zonas turísticas de caça?

– Se o número de quinhentos e quarenta animais a dividir por dezasseis caçadores fossem de coelhos, tordos ou perdizes ou codornizes também gerariam este terramoto de sensações e sentimentos ao que se somam as declarações e opiniões mais ou menos estruturadas?

– Nos Estados de direito, democráticos, o que baliza a ética são ou não as leis em vigor?

– Deve uma certa “moral” impor-se às leis?

– Se fossem quinhentos e quarenta porcos, bezerros ou frangos mortos num matadouro qualquer, às centenas, também indignariam as mesmas gentes?

 

Quando as pessoas responderem conscientemente às perguntas atrás formuladas talvez iniciem o moderar das radicais opiniões.

O ministro, numa arrogante atitude disse que a licença de caça ia ser imediatamente revogada e que o ICNF estaria no terreno, três dias depois da “Matança”, a recolher provas para apresentar uma queixa no ministério público.

Ainda sem sair das perguntas, não seria mais avisado investigar antes de dizer que a licença para caçar na Herdade ia ser anulada e apresentada uma queixa ao MP?

Como pode o ministro dizer que o ato foi vil, que foi uma matança e que vai existir gente acusada de crimes antes de haver recolha de provas, investigação, caso seja viável, existir acusação e julgamento com sentença condenatória transitada em julgado? Estará tudo doido pela moda do animalismo?

Numa coisa o ministro tem razão, os valores de hoje não são os mesmo de há umas décadas atrás e a caça será cada dia mais mal vista pelas populações ocidentalizadas e ricas que não se preocupam com quantos pobres matam na Asia e Africa para manterem os seus estilos de vida. Será a caça, a tourada, as corridas de galgos, de cavalos etc…etc.

Mas porque não deixar o mundo andar na sua velocidade natural e querer saltar etapas para tratar como bandidos, gente de bem, como caçadores e toureiros?

Se querem acabar com essas atividades, que seja o parlamento a votar tais desígnios…entretanto recuso-me a ser tratado como bandido por gostar de ir caçar se não estou a praticar nenhuma ilegalidade.

Se alguns, sejam já a maioria ou não, se arrogam na capacidade e direito de me tratarem como uma besta, deixai-me, trata-los a eles também como bestas. É que eu detesto superioridades morais e detesto que os políticos, no caso de todos os partidos, se alinhem na critica a uma coisa só porque viram uns quantos veados e javalis mortos numa foto e não se indignem com os milhares que morrem nas guerras e afogados no mediterrâneo para fugir das guerras ou para fugirem da fome.

Se esses políticos julgam que a maioria sente dessa forma, mudem a lei, tenham a coragem. Mas das votações que vou vendo na AR, sobre caça e proteção animal, não é esse o caso e os representantes da maioria não validam grandes alterações à lei da caça vigente.

Também a imprensa, sedenta de choque e sobretudo do choque que certas imagens dão, para ter clientes, dá a uma coisa destas uma ressonância que não dá à morte de gente.

Detesto que tratem os animais como humanos, mas detesto ainda mais que me tratem como um animal, o carneiro, que segue o rebanho. Detesto a manipulação de gente bem-intencionada que perante o choque e com desconhecimento ou contraditório é arrastada pela corrente.

“Só os peixes mortos são arrastados pela corrente”

Acredito que na “Montaria” em questão existam interesses económicos, mas não foi por isso que criaram as reservas turísticas ?

Também não me custa aceitar que os animais passaram a ser incómodos na Herdade para o desenvolvimento de uma quinta fotovoltaica com 750 hectares que por ali querem fazer e que esta “caçada” foi apenas uma atividade venatória para os retirar da herdade com uma valorização económica em vez de um custo de transferência dos bichos para outra herdade qualquer onde morreriam da mesma forma só que um pouco mais tarde. Ouvi dizer que cada caçador pagou 2.000,00€ com alojamento para a tal atividade “Turistica”.

Que a imagem é chocante, lá isso é…mas não é mais chocante do que a imagem que coloco no titulo, para muitos dos que já se indignam com a caça e são veganos simultaneamente.

Também a superioridade moral de alguns que se indignam com os sorrisos de um casal que posa numa das fotos me irrita porque critica de forma acintosa o prazer que alguém sente no seguimento de uma atividade que presumivelmente é legal. Isso é a ditadura do gosto e eu detesto ditaduras. Inscrevem-se, quanto ao assunto, na ditadura do gosto, a página do Facebook do Procurador e o Rui Zink que são gente que admiro e sigo com prazer e não quero imaginar a terem comportamentos semelhantes aos que critico em adeptos do Chega e outros que tais.

Que podem ter sido, na ação, cometidos alguns crimes de natureza sanitária e de comercialização ilegal de carne, não me custa aceitar. Que algumas regras no controle veterinário dos animais mortos foram afrouxadas também não me custa aceitar, mas daí a tratar como bárbara, gente que sorri para uma foto onde também estão presentes umas centenas de cadáveres de animais abatidos ou até os que não ostentaram nada mas apenas na atividade participaram é para mim uma atitude inaceitável.

Se houve prevaricações ou crimes, ao Estado cumpre a obrigação de investigar, acusar julgar e condenar de forma razoável e discreta sob pena de se tornar um Estado populista que explora sentimentos e manipula gente mal informada…pensei que isso era atividade usual da extrema-direita e fascistas e não num país com um governo social-democrata do PS.

Coimbra, 22 de dezembro de 2020

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Um comentário em “Quando me sinto fascista…

  1. Augusto Andrade diz:

    Não sendo marxista, concordo com a sua análise.
    Vive-se, hoje em dia, na ditadura das redes sociais…
    O que hoje se condena, amanhã será glorificado se apresentado com ornamentos de que “as redes” gostem!
    Não há pachorra!

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